Plataforma de satélite Copernicus que ativa a proteção climática do pequeno agricultor da América Latina, integrando informação, evidência e acesso numa única interface.
Geraldo tem 47 anos e 12 hectares de milho no Cerrado brasileiro. Perdeu a safra na seca de 2022 e nunca soube que tinha direito a três programas de proteção rural. A SafraSense existe para que ele, e os 16,5 milhões de explorações de agricultura familiar da América Latina e Caribe (FAO), deixem de enfrentar o clima sozinhos.
A agricultura familiar produz a maior parte do alimento que chega à mesa do brasileiro. Proteger esse produtor não é proteger uma commodity de exportação, é proteger a comida que abastece o país. Por isso a SafraSense é, antes de tudo, uma ferramenta de segurança alimentar, e não um instrumento financeiro voltado a mercados premium.
Hoje, com a SafraSense, o Geraldo receberia a tempo um aviso em linguagem clara: "Sua propriedade entrou em risco de seca severa nas próximas semanas. Você tem direito a uma cobertura que protege sua safra, e pode pedir pelo aplicativo uma análise satelital para acioná-la rápido, sem esperar o perito." É o momento em que a plataforma deixa de apenas informar e passa a proteger.
O pequeno agricultor familiar da América Latina está estruturalmente desprotegido diante do clima, e a razão não é a falta de soluções, mas a impossibilidade de acessar as que já existem.
No Brasil, a cobertura do seguro rural caiu 76% em cinco anos, de 13,7 milhões de hectares segurados em 2021 para 3,2 milhões em 2024. Hoje só 3,3% da área plantada está protegida, contra 40% nos Estados Unidos e mais de 90% na Índia. O seguro paramétrico, que paga automaticamente quando um índice climático se rompe, sem perícia, cobriu apenas 11.953 hectares no país inteiro em 2025 (FGV Agro), porque o custo do dado satelital comercial torna o produto inviável para o pequeno produtor.
O mercado de seguro agrícola brasileiro é maduro e oferece mais de dez modalidades de cobertura. O que falta é o produto chegar a quem tem 5, 10, 20 hectares: o custo administrativo torna a operação inviável para as grandes seguradoras. O pequeno agricultor, que representa 95% do mercado de apólices, fica excluído do próprio mercado criado para protegê-lo.
Em paralelo, existem políticas públicas robustas de proteção climática às quais o agricultor teria direito, mas a maioria não as conhece, não sabe a quais se aplica, nem como acioná-las quando a crise chega. A burocracia é a primeira barreira de exclusão.
O resultado é um ciclo. Quando há seca, o produtor descapitaliza. Quando descapitaliza, renegocia dívida. Quando renegocia, fica mais vulnerável à próxima seca. Sem evidência acessível para acionar a proteção, sem proteção viável na sua escala, e sem agência, porque as ferramentas que existem atendem a quem gere produtores, não ao produtor.
A SafraSense coloca o pequeno agricultor como usuário direto, não como objeto de gestão de terceiros, e oferece a ele uma interface integrada construída sobre os dados gratuitos do programa Copernicus. A partir do registro da propriedade, a plataforma percorre três caminhos.
Monitora continuamente o estado da terra, com umidade do solo, vigor da vegetação e alertas antecipados, em linguagem clara.
Quando detecta crise, cruza o perfil do produtor com os mecanismos de proteção vigentes e mostra automaticamente os caminhos a que ele é elegível, com instruções precisas. Para um perfil de 12 hectares no Cerrado, por exemplo, aciona o Proagro Mais sobre o custeio do Pronaf e o seguro subvencionado pelo PSR, e não oferece o Garantia-Safra, reservado a áreas menores.
Gera evidência técnica institucional, um laudo satelital auditável, que acelera o acesso à proteção e reduz a necessidade de perícia presencial. E foi desenhada para habilitar a ativação da cobertura paramétrica via seguradora parceira, viável economicamente porque a fonte de dado é gratuita.
Três caminhos, uma única interface pensada para o produtor, não para o perito nem para o gestor de carteira. A SafraSense chega pelos canais em que ele já confia, a extensão rural e as cooperativas, e o onboarding é de baixa fricção: o polígono do SICAR já existe e o produtor acompanha tudo por WhatsApp. Não exige que ele seja nativo digital nem que aprenda uma tecnologia nova para se proteger.
Sem uma fonte satelital oficial, gratuita e auditável institucionalmente, nenhum dos caminhos funciona economicamente para o pequeno produtor. O Copernicus é a engrenagem dorsal porque combina cobertura sobre toda a América Latina, validação da ESA e custo zero, condições que nenhum provedor comercial reúne. O Sentinel-2 sustenta o monitoramento do cultivo, com NDVI e NDWI para vigor da vegetação e estresse hídrico, e a umidade do solo vem do Soil Water Index do Copernicus Land Monitoring Service, baseado no radar do Sentinel-1.
Enquanto o mercado constrói painéis profissionais para seguradoras e cooperativas, a SafraSense construiu a interface direta entre o produtor e a proteção a que ele já tem direito. O pequeno agricultor deixa de ser objeto monitorado e passa a usuário da própria rede de segurança climática. Essa é a inversão no centro do projeto: o produtor como sujeito, não como item de carteira.
Há um segundo diferencial igualmente importante. A SafraSense não leva capital que endivida nem participação que dilui o produtor. Conecta ao que já é dele por direito, os programas públicos, e à proteção contra a perda climática. Ele não vira devedor nem ativo de investidor, permanece dono da sua terra e das suas decisões. Onde outras soluções respondem à falta de acesso com mais dívida ou capital de terceiros, a SafraSense responde com o direito que o Estado já garante.
E o Brasil ocupa uma posição única para escalar. O SICAR já provê o cadastro georreferenciado de todos os imóveis rurais, vinculado a CPF e CNPJ. Isso elimina o passo mais doloroso de qualquer operação geoespacial agrícola e torna a integração com seguradoras quase instantânea, porque elas já têm nome, apólice e código do CAR de cada cliente.
O posicionamento não é teoria. Cada diferença já está construída no protótipo navegável.
Interface pensada para o produtor: app em português, espanhol e inglês, barra de acessibilidade com fontes ampliadas e alto contraste, acompanhamento por WhatsApp, estado da lavoura num semáforo simples e gráficos com o ícone da própria cultura.
Onboarding sobre o CAR: o produtor desenha a área no mapa ou busca pelo endereço, o sistema cruza com o Cadastro Ambiental Rural e devolve os imóveis para ele confirmar o lote, calcula e converte a área entre hectare, alqueire e módulo fiscal, e gerencia múltiplos lotes.
Os três caminhos num fluxo só: monitoramento com série histórica de NDVI e nível de confiança em cada análise, verificação automática de elegibilidade a Pronaf Custeio, Garantia-Safra, Proagro Mais e PSR com explicação clara quando o produtor não se enquadra, e seguro paramétrico que só libera a contratação após a titularidade comprovada.
A evidência que destrava a proteção: laudo técnico no padrão A4 com dados do Sentinel-2, coordenadas, código do CAR, curva de NDVI, histórico mensal e anomalias climáticas, a prova que o produtor leva para acionar seguro ou programa.
Confiança do modelo com humano no circuito: cada análise mostra o nível de confiança, e em casos de borda o produtor envia fotos georreferenciadas ou pede a vistoria de um agrônomo, que atualiza a precisão. A tecnologia não decide sozinha.
O ciclo completo, do alerta ao pagamento: o protótipo demonstra o fluxo que queremos entregar, do alerta de seca à liberação do pagamento paramétrico via Pix. A ativação real desse pagamento é o que se conecta a uma seguradora parceira.
A SafraSense trata o número e o polígono do CAR como dado público, porque são, mas a vinculação entre titular e imóvel para acionar proteção exige comprovação documental e consentimento. O produtor pode ver e monitorar livremente; acionar um seguro ou programa exige comprovar a titularidade. Separamos o que é aberto, o ver, do que exige base legal, o agir. O produtor é dono dos próprios dados, e não há venda de base de ddados. Alinhada à LGPD desde o primeiro dia.
Em 12 hectares de milho, com produtividade conservadora de cerca de 90 sacas por hectare e a saca cotada a uns R$65 (CEPEA/ESALQ, maio de 2026), a safra plena vale ao redor de R$70.000. Uma seca severa que compromete metade da produção coloca cerca de R$35.000 em risco, numa propriedade que é o sustento de uma família inteira. A SafraSense não devolve a chuva, mas garante que o Geraldo não enfrente essa perda sem a proteção a que tem direito, e sem semanas de espera por um perito para comprovar o que o satélite já mostra.
A SafraSense já é um protótipo navegável de ponta a ponta. Estão construídos: cadastro com consentimento LGPD e identificação por CPF e CNPJ, onboarding multi-lote com mapa e cruzamento com o CAR, painel de monitoramento com série histórica de NDVI e nível de confiança, verificação de elegibilidade aos programas públicos, a interface do marketplace de seguro paramétrico, laudo técnico satelital, comprovação de titularidade, demonstração do gatilho paramétrico com pagamento via Pix, e gestão de perfil e segurança. A integração com os dados ao vivo do Copernicus Land Monitoring Service e do Sentinel-2 é a próxima etapa, prevista para antes do encerramento do hackathon.
Produto gratuito para o agricultor. A sustentabilidade vem do SaaS B2B com seguradoras especializadas em paramétrico agrícola e do licenciamento ao setor público. Os parceiros naturais já estão identificados, seguradoras autorizadas pela SUSEP no paramétrico agrícola como a Newe Seguros e a Guarda, e fechar essa conexão comercial é o passo que buscamos agora. O mesmo dado que protege o Geraldo, agregado em escala municipal ou estadual, vira inteligência territorial para agências de extensão rural, ministérios e organismos multilaterais, que podem antecipar crises alimentares em zonas inteiras. Não cobramos do produtor e não vendemos seus dados.
A SafraSense começa pequena e concreta, e escala sobre uma base que já existe.
No piloto, no Noroeste de Minas, o alvo são as primeiras centenas de famílias produtoras de milho e soja. No perfil do Geraldo, cada família tem cerca de R$70 mil de safra por ano, com aproximadamente R$35 mil em risco numa seca severa. Levar a proteção a 200 dessas famílias já significa colocar perto de R$14 milhões de safra sob cobertura potencial, numa região hoje praticamente sem seguro.
Atrás dessas famílias está o universo a alcançar. Só Minas Gerais tem 441,8 mil estabelecimentos de agricultura familiar, o segundo maior contingente do país, que movimentam R$14,9 bilhões por ano. No Brasil são 3,9 milhões de estabelecimentos familiares, que ocupam 80,9 milhões de hectares e respondem por 23% do valor da produção agropecuária nacional. E mesmo assim só 3,3% da área plantada do país tem seguro. A safra com potencial de ser protegida é quase tudo o que a agricultura familiar produz e que hoje está descoberto.
O teto é continental: 16,5 milhões de explorações de agricultura familiar na América Latina e Caribe (FAO), em países com a mesma lógica de cadastros georreferenciados e programas públicos que a SafraSense destrava. O mesmo motor Copernicus que protege o Geraldo serve a todos eles.
Fase 1, de 0 a 12 meses: MVP no Noroeste de Minas Gerais (Unaí, Paracatu, Arinos), foco em milho e soja, validação com seguradora parceira e conexão com a extensão rural para chegar ao produtor. Expansão a outras microrregiões e integração com APIs governamentais para escalar o acesso aos programas públicos.
Fase 2, de 12 a 24 meses: conexão a estruturas de cobertura sistêmica via mercado financeiro agrícola, para absorver eventos climáticos regionais. Construída para escalar do Brasil ao continente, porque o mesmo motor Copernicus pode ativar mecanismos de proteção em qualquer país da América Latina com políticas públicas equivalentes.
A SafraSense não inventa novos mecanismos de proteção. Torna alcançável a que já existe. Quando o satélite confirma a crise, o agricultor já tem a resposta pronta: o programa a que tem direito, a evidência de que precisa, e o caminho para chegar.
Amanda Píccoli - negócios
Christian Máximo - designer
Leonardo Heredia - desenvolvedor
Raphael Branco - desenvolvedor
https://github.com/UIchristian/PROJETO-SAFRA-SENSE